6 de abr de 2013

[Conto] DALTON TREVISAN – Três tiros na tarde



-  PEDRO LUSO DE CARVALHO 


DALTON TREVISAN foi um dos escritores brasileiros que, no início dos anos 60, passaram a adotar o conto para contar suas histórias; nessa época, que marcou uma revolução na produção desse gênero literário, também se destacaram: Rubem Fonseca, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles.

Na introdução de Os cem melhores contos brasileiros do século, o crítico literário Italo Moriconi disse que foi há cerca de cinco décadas que o conto se formatou em uma narrativa de no máximo 20 a 25 páginas, deixando para trás as histórias mais longas e caudalosas, que são classificadas como novelas.

No moderno conto brasileiro destacam-se Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, o que pode ser comprovado pela crítica literária e também pelos nomes das editoras que os publicam, pelo numero de suas reedições, em especial pela aceitação de ambos pelos leitores.

Segue o conto Três tiros na tarde, de Dalton Trevisan (in Dalton Trevisan/A faca no coração, 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1979, p. 53-55):


[ESPAÇO DO CONTO]


 TRÊS TIROS NA TARDE
(Dalton Trevisan)


Primeiro ela deitou uma droga no licor de ovo – a garganta em fogo, João correu para a cozinha e tomou bastante leite. Depois ela misturou soda cáustica na loção de cabelo, que lhe queimou as mãos. O vidro moído no caldo de feijão rangia-lhe os dentes – e rolava no chão do banheiro, as entranhas fervendo.

Chaveados no guarda-roupa o creme de barba, o talco, o perfume, João decidiu só comer na companhia dos filhos – e se, para matá-lo, envenenasse Maria também os filhos?

Ele dormia, cansado da viagem de negócio. Maria abriu o gás do aquecedor. Salvo pelo menino, que bateu na porta:

– Pai, acorde. Que cheiro é esse pai?

– Esqueci o cigarro aceso.

Já dormia em quarto separado. Ela recebia flores de antigos noivos. Fim de semana viajou sozinha para aborto de um filho que não era dele.

– Os dias que passei longe – anunciou para uma amiga – foram os melhores de minha vida.

O pai de João foi procurá-lo no escritório:

– Meu filho, o que está esperando? Você quer morrer – é isso?

Sem coragem de abandonar os meninos com aquela doida. Ou quem sabe amava a doida?

Na poltrona da sala, o copo de uísque na mão, lia os programas dos cinemas:

– Que filme gostaria de ver, Maria?

Um dos guris brincando a seus pés no tapete.

– Para você, querido.

Voltou-se e recebeu os três tiros no rosto.

– Mãe, por que a senhora fez isso? – e o piá limpava no pulôver branco a mãozinha grudenta.

– Agora não adianta mais.

Olho arregalado, a sogra surgiu na porta:

– O meu filho essa desgraçada matou.

Deitado o seu menino no sofá de palhinha. Vertia sangue das feridas e pingava numa bacia no chão.

– Tão bonito. Nem tinha pelo no braço. No carnaval saiu de mulher. Ninguém desconfiou.

De joelho, a velha enxugava a sangueira no bigode:

– Por que não dá o tiro de misericórdia?

Maria virou-lhe as costas:

– Tirem daqui essa louca.

Sozinha no quarto, vestiu-se de vermelho, pintou o olho, enfeitou-se de brinco. Toda em sossego sorria para o espelho.



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