26 de set de 2011

MARY McCARTHY / Uma entrevista

Mary McCarthy, Portsmouth, RI, ca. 1950. Photo by Kevin McCarthy.
 Courtesy of  Vassar College Library


                     por  Pedro Luso de Carvalho


        A escritora norte-americana, Mary MacCarthy, concedeu uma entrevista a Elizabeth Sifton, da The Paris Review, que teve lugar na sala de estar de seu apartamento de Paris, onde esteve hospedada durante e inverno de 1961. Essa entrevista, juntamente com outras, exlusivamente com escritoras, feitas pela The Paris Review, foram publicas na França com o título original Women Writers at Work (editado por George Plimpton), e, mais tarde, publicada no Brasil com o título Escritoras e a arte da escrita, com tradução de Maria Ignez Duque Estrada, pela Gryphus, Rio de Janeiro, 2001.

        Mary MacCarthy, nasceu em Seattle, Washington, em 21 de julho de 1912. Com a morte de seus pais, que foram acometidos de influenza em 1918, quando contava com oito anos, passou a ser criada pelos avós, tios e tias.Graduou-se no Vassar College, em 1933. Depois começou a escrever resenhas de livros para The Nation e The New Republic. Nos anos de 1936 e 1937 atuou como editora e crítica teatral da Partisan Review.

       MacCarthy casou-se com seu compatriota Edmund Wilson, escritor e crítico literário brilhante, que, segundo Gore Vidal, foi um dos escritores mais inteligentes de seu país, e dono de uma invejável erudição - autor de O Castelo de Axel, estudo sobre literatura imaginativa de 1870 a 1930. Com ele a escritora teve um filho, em 1938.

        Depois de ter se divorciado de Edmund Wilson, Mary MacCarthy passou a lecionar, por algum tempo, no Bard College e no Sarah Lawrence. Foi membro do Instituto Guggenhein, recebeu o prêmio Horizon. Em 1957, recebeu uma bolsa no Nacional Institute.

Edmund Wilson, ca. 1943. Photo by Sylvia Salmi. 
Courtesy of Helen Miranda Wilson
        Escreveu inúmeras obras de ficção e crítica: The Company She Keeps (1941), The Goves of Academe (1952), A Charmed Life (1955), Memories of a Catholic Girlhood (1957), The Stones of Florence (1959), The Group (1963). The Writing of the Wall and the Other Literrary Essays (1970) e Ideas and the Novel (1980). 

        Em 1984, Mary MacCarthy ganhou o prêmio Edward McDowell e o National Award for Literature. Foi membro do National Institute of Arts and Letters.Em 1987, foi publicada autobiografia, intitulada How I Grew. Mary MacCarthy morreu 1989, aos setenta e sete anos, e não chegou a concluir o segundo volume de sua autobiografia.

        Segue alguns trechos da entrevista concedida por Mary McCarthy a Elizabeth Sifton, da The Paris Review, em 1961: 

         E. S. – A senhora gosta de escrever na Europa:

        Mary MacCarthy: Não sinto, na verdade, grande diferênça. Acho que se a gente ficar aqui durante muito tempo, vai começar a notar uma pequena diferênça com a língua. 

         E. S. - O velho problema dos americanos na Europa a interessou como romancista?

        Mary MacCarthy: Acredito que sim, naquela época, ao menos naquele conto. Depois não. Mas há uma coisa, não sei se já não me sinto bastante americana; afinal Nova York está tão europeizada, e tenho tantos amigos europeus, que a distinção entre nós e os europeus fica um tanto diluída. E também a Europa se americanizou bastante. Não, já não vejo uma distinção como James via [referece-se Henry James]. Quero dizer, vejo em James, e poderia perceber isso até 1946, agora não. Não sinto mais aquela antítese, a jovem América e a velha Europa. Acho que de fato isso acabou. Se é melhor ou pior, não sei. Talvez pior.

         E. S. - A senhora se aborrece se tentam interpretar seu romances como romans à clef' ?

        Mary MacCarthy: Suponha que eu mesma provoque isso de alguma maneira. Mas ao mesmo tempo me aborrece, sim, na medida em que desvia a atenção do que tentando fazer no romance.O que eu realmente faço é pegar ameixas de verdade para por no bolo. Se você está interessado no bolo, pode se chatear se as pessoas disserem que tipo de ameixa ele tem .

         E. S. - Que livros a senhora incluiu no curso de Romance Moderno?

       Mary MacCarthy: Bem, Bard College, era preciso considerar tudo moderno ou contemporâneo, senão os estudantes não se inscreviam para o curso. Todo mundo acha que isso é piada, mas é verdade. No início, eu ia dar um curso completo sobre teoria crítica, de Aristóteles a T.S. Elliot ou algo assim, e apenas três estudantes se inscreveram, mas se o título fosse Criticismo Contemporâneo, teríamos tido uma classe regular. Por isso chamamos o curso de Romance Moderno, que começava com Jane Auten e ia até Henry James. Ensinei, então, romances aos pares, Emma e Madame Bovary juntos. Depois, A princesa Casamassina, com a trama anarquista e tudo o mais, com Os Possessos, O Vermelho e o Negro com Grandes Esperanças. E Fantamara com outra coisa. Só ensinava romance de que gostava.

         E. S. - O programa seria basicamente o mesmo se a senhora estivesse ensinando agora? Ou tem outras predileções?

        Mary MacCarthy: Ah! Não sei, talvez acrecentasse algo como Doutor Jivago no final. Provavelmente escolheria um outro Dickens. Li muito Dickens desde então. Agora acho que abordaria Our Mutual Friend ou LitleDorrit.

        E. S. - Por que a senhora começou a ler Dickens outra vez? 

        Mary MacCarthy: Não sei, fiquei interessada por ele no Bard College e depois no Sarah Lawrence. Outro estímulo foi um livro escrito por Edgar Johnson, biógrafo de Dickens. Anthony West o havia atacado em The New Yorker, e isso me enfureceu tanto que fiz uma resenha do livro, o que desencadeou uma reação em cadeia. Eu sou apaixonada por Dickens.

        E. S. - Falando de sua própria escrita, de algum modo a senhora atribui seu “estilo” ao trabalho crítico aanterior – não sente influência de outros escritores em sua ficção?

        Mary MacCarthy: Não acho que tenha quaisquer influências. Meu primeiro conto, o primeiro de The Company She Keeps, mostra nitidamente a influência de James – Jamaes é contagiante! Além disso, não vejo outra influência. Quer dizer, não posso – por mais distanciada que esteja -, olhar para meu trabalho e ver de onde ele veio, quais suas fontes literárias.

Mary McCarthy, Paris, mid-’60s.
Courtesy of Vassar College Library
          E. S. - No entanto, deve haver alguns escritores, mais do que outros, pelos quais se sente atraída.

        Mary MacCarthy: Ah! sim! Mas não acho que escreva como eles. O escritor de que mais gosto mesmo é Tolstói, e sei que não escrevo como Tolstói. Eu bem que gostaria! Talvez a melhor prosa inglesa seja a de Thomas Nash. Não escrevo, de modo algum como Thomas Nash.

        E. S. - Parece também, pelos indícios que nos dá seus livros, que gosta igualmente de escritores romanos.

         Mary MacCarthy: Eu gostava, quando jovem, muito jovem. Ao menos Catulo e Juvenal eu adorava; os dois pelos quais era apaixonada. E por César, quando era menina. Mas não se pode dizer que fui influenciada por Catulo! Não! E de Stendhal gosto muito, muito mesmo. Posso dizer também que ficaria muito feliz se escrevesse como ele, mas não escrevo. Há algumas frase em Standhal que me vêm à mente como se pudesse escrevê-las, mas não posso. Uma clareza e concisão – a atitude do escritor sintetizada numa frase, e com tal simplicidade, sem qualquer ostentação. Uma espécie de alegria.