3 de jan de 2011

SUSAN SONTAG - Uma Entrevista

Susan Sontag

                      
                 por  Pedro Luso de Carvalho

        
      O primeiro livro de ficção de Susan Sontag, O benfeitor, foi publicado no Brasil em 1963 pela L&PM, com a tradução de Ana Maria Capovilla. Essa editora já havia publicado seus livros de ensaio e crítica: Contra a interpretação, Sob o signo de Saturno e A doença como metáfora. Sontag publicou ao todo 15 livros, entre eles os romances The Benefactor, Death Kit e The Volcano Lover; publicou também uma coletânea de contos e três coletânea de ensaios. Versátil, escreveu e dirigiu quatro filmes: Duets for Cannibals, Brother Carl, Promised Land e Unguided Tour (de 1969 a 1983). Também editou e apresentou textos de Antonin Artaud, Roland Barthes e Danilo Kis. Mais ainda: escreveu prefácios para os livros de Robert Walser, Marina Tsvetayeva, Machado de Assis e Juan Rulfo, entre outros, no período de 1982 a 1995.

        Susan Sontag foi uma das mais importantes intelectuais dos Estados Unidos. Nasceu em Nova Iorque, em 1933, e criou-se no Arizona e Carolina do Sul, tendo-se formado em 1951 na Universidade de Chicago. Recebeu dois títulos de Mestre na Universidade de Harvard: Inglês, em 1954, e Filosofia, em 1955. Sua vida acadêmica, como professora de Filosofia e de História da Religião foi até o início dos anos 60. Viveu em Paris por um ano, depois passou a residir em Nova Iorque, com retornos freqüentes à Europa. Dentre os prêmios que ganhou, destaque-se: National Book Critics Circle Award, com Photography, em 1977.

        A entrevista que Sontag concedeu a Edward Hirsch para The Paris Review se estendeu por três dias, no seu apartamento em Manhattan, no mês de julho de 1994. Por tratar-se de um texto alentado, ficaremos apenas com alguns trechos. 

        Hirsch pergunta se ela se incomoda se a chamam de intelectual. SONTAG: Bom, a gente não gosta de ser chamada de coisa alguma. E essa palavra tem mais sentido para mim como adjetivo do que como substantivo, embora eu suponha que se refira sempre a alguém extravagante e sem graça – especialmente se for mulher. Isso me torna ainda mais engajada em minhas polêmicas contra os clichês comuns sobre os intelectuais que fala de coração versus cabeça, sentimento versus intelecto e assim por diante.

        Que mulheres foram importantes para a senhora? SONTAG: Muitas. Sei Shonagon, Jane Austen, George Eliot, Emily Dickinson, Virginia Woolf, Marina Tsvetayeva, Anna Akhmatova, Elizabeth Bishop, Elizabeth Hardwick… a lista não acaba. Do ponto de vista cultural as mulheres são uma minoria, e com minha consciência de pertencer à minoria, eu me regozijo com as contribuições das mulheres. Com minha consciência de escritora, me regozijo com quaisquer escritores que admire, sejam mulheres ou homens.

        Hirsch diz-lhe que a sua impressão é de que sua idéia madura (Sontag) de uma vocação é mais européia do que americana. SONTAG:  Não tenho tanta certeza. Acho que é minha marca particular. Mas é verdade que, vivendo na segunda metade do século XX, posso satisfazer meus gostos europeus sem propriamente me expatriar e ainda passar boa parte de minha vida adulta na Europa. Esse tem sido meu jeito de ser americana. Como Gertrud Stein observou: Para que servem as raízes se você não pode carregá-las com você? Pode-se dizer que isso é muito judeu, mas é americano também.

        Existe alguma coisa que a ajude a começar a escrever? SONTAG: A leitura – que raramente está relacionada com o que estou escrevendo, ou desejando escrever. Leio muito sobre história da arte, história da arquitetura, musicologia, livros acadêmicos sobre vários assuntos. E poesia. Começar é, em parte, ganhar tempo, ganhar tempo lendo e/ou escutando música, o que me dá energia e também me angustia. Sinto-me culpada por não estar escrevendo.

        Ficou antiquado pensar-se que o propósito da literatura é de nos educar sobre a vida? SONTAG: Bem, de fato ela nos educa sobre a vida. Não seria a pessoa que sou, não compreenderia o que compreendo se não fossem alguns livros. Estou pensando na grande questão da literatura russa do século XIX: como se deveria viver? Um romance que merece ser lido é um aprendizado do coração. Alarga o sentido das possibilidades humanas, do que é a natureza humana, do que acontece no mundo. É um criador de vida interior.

        A literatura provoca êxtase? SONTAG: Certamente, mas menos confiável do que o da música e da dança: a literatura tem mais a ver com a cabeça. Precisamos ser rigorosos com os livros. Só quero ler o que vou querer reler – essa é a definição de um livro que vale a pena.

        A senhora sempre volta atrás e relê seus trabalhos? SONTAG: Só para rever traduções. Não, de modo algum. Não sou curiosa. Não sou apegada à obra que já está pronta. E também porque não quero reconhecer que tudo é sempre igual. Talvez eu sempre relute em reler qualquer coisa que tenha escrito há mais de dez anos porque isso destruiria minha ilusão de que estou sempre começando. É isso que é mais americano em mim: sempre sinto que é um novo começo.

        No final da entrevista da qual foi transcrita apenas parte dela, como disse acima, Edward Hirsch, da The Paris Review, pergunta à escritora: “A senhora pensa muito no público que vai ler seus livros?” SONTAG: Não ouso. Não quero. Mas, de qualquer modo, não escrevo porque existe um público, mas escrevo porque existe a literatura. 

        Susan Sontag foi casada com Philip Rieff (1950), sociólogo e crítico cultural, e professor das Universidades de Berkeley e Harvard, entre outras, e ficou conhecido pelos seus estudos sobre Freud e sobre a ética na cultural ocidental; do casamento, que durou nove anos, nasceu um filho, David Rieff, jornalista e analista de política internacional. A escritora morreu em Nova Iorque, em 28 de dezembro de 2004 - 19 dias antes de completar 71 anos.




REFERÊNCIA:
PLIMPTON, George. The Paris Review. Escritoras e a arte da escrita. Tradução de Maria Ignez Duque Estrada. Rio de Janeiro: Gryphus, 2001.