26 de jul de 2010

CARTAS / Mario de Andrade a Sabino



               por Pedro Luso de Carvalho.
       
          
        A correspondência, entre escritores e amigos, foi de grande importância para Mário de Andrade, como diz Moacir Werneck de Castro, na apresentação que faz do livro Mário de Andrade, Cartas a Murilo Miranda, publicado pela Editora Nova Fronteira em 1981: “A correspondência é parte essencial da obra de Mário de Andrade. Não apenas porque a explique e ilumine com revelações biográficas, mas pela riqueza que encerra de idéias, elaborações estéticas, projetos participantes, lampejos e intimidades do pensamento em transe de um homem que foi uma das expressões mais altas e completas da cultura brasileira. As cartas a Manoel Bandeira, Paulo Duarte, Rubens Borba de Moraes, Rodrigo M.F. de Andrade e Fernando Sabino, já publicadas, além de outras que saíram esparsas, dão a medida da importância desse acervo. Só isso bastaria para justificar a publicação das cartas a Murilo Miranda reunidas neste volume”.

        Não será desta vez, no entanto, que farei menção e transcrição de uma dessas cartas trocadas entre Mário e Murilo. Hoje, me ocuparei do livro Cartas a um Jovem Escritor. Remetente: Mário de Andrade. Destinatário: Fernando Sabino, publicado em 1993 pela Record, 3ª ed., que traz a seguinte nota: “As cartas de Mário de Andrade foram transcritas na íntegra, respeitadas a pontuação e a grafia característica de certas palavras. Apenas a acentuação foi atualizada”.

        Na época em que se iniciou essa correspondência com Mário de Andrade, escritor de grande prestígio, Fernando Sabino era ainda muito jovem (18 anos), e morava Belo Horizonte; estava no início de sua carreira literária. E foi justamente pela diferença de idade existente entre eles, e pela diferença de experiência literária havida entre os dois escritores – Sabino iniciando-se na literatura e Mário com grande prestígio literário -, que me vi motivado a fazer esta abordagem, esperando que os conselhos de Mário de Andrade a Fernando Sabino possam ser de alguma utilidade para os jovens escritores.

        Então, passo a transcrever a segunda carta de Mário, escrita em 25.01.1942 (a primeira foi enviada a Sabino quinze dias antes desta); por se tratar de uma carta extensa, me permito transcrevê-la apenas em parte, com trechos que achei mais importante:
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        “S. Paulo, 25-1-42 -Fernando Sabino:
     
        
        Recebi sua carta e refleti sobre ela. A conclusão mais séria pra mim é a seguinte: Vejo que estamos os dois na iminência de iniciar uma correspondência longa e nutrida. Pra você, moço, cheio de vida e ainda “não consagrado”, ansioso de saber, isso não vai ser difícil. Pra mim vai. Seria estúpido eu não saber que sou “consagrado”. Só os esforços, os esperneios, os papelões que faço pra não virar medalhão duma vez, você nem imagina. Sucede pois, é natural, que tenho muitíssimo trabalho e também uma correspondência enorme .
       
(...) Mas antes exijo que você pense muito seriamente sobre você. Tanto mais que, pelo que seu livro indica como tendências pessoais, o seu caminho na arte é pesado, muito árduo e sem brilho. Você não irá estourar por aí, ganhando a batalha de um golpe só, como um Lins do Rego, uma Raquel de Queiroz. (...) Você irá escrevendo, irá escrevendo, se aperfeiçoando, progredindo aos poucos: um belo dia (si você agüentar o tranco) os outros percebem que existe um grande escritor.

        (...) Ora, Fernando, pra agüentar com um destino desses, antes de mais nada, é preciso ter uma ambição enorme, uma paciência enraivecida, um desejo de se “vingar” da vida, e uma ensolarada saúde mental. Você tem isso? Não seja tímido nem humilde não, que então é fracasso na certa. Não tenha vergonha de se confessar a si mesmo (não a mim) que você tem ótimas qualidades, é muito inteligente, é orgulhoso de si, tem desprezo pela frouxidão alheia e quer chegar e há-de chegar.

        (...) O prosador lida com a inteligência lógica, está no plano do consciente, das relações de causa e efeito. O seu discurso tem cabeça, tronco e membros, princípio-meio-e-fim, embora pouco importe que muitas vezes o assunto exija que o fim esteja no princípio, e o princípio no meio. Não tem disposição? Não se trata de ter disposição: você é um operário como qualquer outro: se trata de ter horas de trabalho. Então, vá escrevendo, vá trabalhando sem disposição mesmo. A coisa principia difícil, você hesita, escreve besteira, não faz mal. De repente você percebe que, correntemente ou penosamente (isto depende da pessoa) você está dizendo coisas acertadas, inventando belezas, forças, etc. Depois, então, no trabalho de polimento, você cortará o que não presta, descobrirá coisas pra encher os vazios, etc.

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        (...) Sei que sou o animador mais... desanimador que existe. Mas é que sempre a convicção (e exemplos) que os bons agüentam o tranco, dão por paus e por pedras, mas vão pra diante de qualquer maneira. Com um abraço do Mário de Andrade.”

        A amizade desses dois escritores (e correspondência) durou por muitos anos, até a morte de Mário de Andrade, no ano de 1945. E, pelo excepcional escritor que se tornou, tudo nos leva a crer que Fernando Sabino seguiu à risca os conselhos do mestre.



REFERÊNCIA
ANDRADE, Mário. Cartas a um Jovem Escritor. Remetente: Mário de Andrade. Destinatário: Fernando Sabino. 3ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1993.

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