23 de jul de 2012

EINSTEIN & FREUD / Correspondência




                                por Pedro Luso de Carvalho


       As cartas, de pessoas ligadas aos mais variados ramos do conhecimento, constituem-se em documentos importantes para a História da Ciência e das Artes, como para a História da Civilização, uma vez que o missivista relata fatos de uma determinada época sobre a existência de acontecimentos, como ocorre com os documentos oficiais (institucionais), que, igualmente, se prestam, como ensina Jolivet, para o estudo dos fatos do passado que influíram na evolução das sociedades humanas.

        Sendo assim, não se faz necessário fazer qualquer comentário sobre a carta que Albert Einstein escreveu a Sigmund Freud, que passou a integrar o livro Vida e Obra de Sigmund Freud, escrito por Ernest Jones, o biógrafo mais importante do criador da Psicanálise:

            “Princeton. 21.4.1936Verehrter Herr Freud:
        Sinto-me contente de que esta geração tenha a boa sorte de poder valer-se da oportunidade para expressar-lhe o seu o seu respeito e a sua gratidão, na qualidade de um dos seus maiores educadores. Indubitavelmente, o seu trabalho não criou facilidades para as pessoas leigas, marcadas pelo ceticismo, viessem a formular um julgamento independente a respeito. Até a bem pouco tempo podia eu aprender tão-somente o poder especulativo de suas concepções, juntamente com a sua enorme influência sobre a Weltanschauung da era presente, sem achar-me em condições de formar uma opinião conclusiva acerca do grau de verdade que nelas se continha.

        Não há muito tempo, no entanto, tive a oportunidade de ouvir umas poucas coisas, em si mesmas não muito importantes, que, segundo o meu juízo, excluem qualquer outra interpretação que não seja a oferecida pela teoria da repressão. Senti-me satisfeito em ter dado com essas coisas, já que é sempre encantador quando uma grande e bela concepção prova a sua harmonia com as coisas da realidade.
                                                                                                            Seu A. Einstein".

        No final da carta que escreveu para Sigmund Freud, em post scriptum, Albert Einstein pediu-lhe: “Por favor, não responda a esta carta. Meu prazer em valer-me da ocasião para escrever-lha já me é suficiente”. Tal pedido, no entanto, não foi por atendido por Freud, que, segundo Ernest Jones (Vida e Obra de Sigmund Freud), não tardou a responder-lhe:

        “Viena, 3.5.1936, Verehrter Herr Einstein:
       
      São vãs as sua objeções para que eu não responda à suas amável carta. Freud então responde à carta de Einstein:
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        "Efetivamente preciso dizer-lhe quão satisfeito fiquei da alteração havida no seu julgamento – ou, pelo menos, início de alteração. Sem dúvida que eu sempre soube que você me “admirava” por uma questão de cortesia e que acreditava muito pouco em quaisquer das minhas doutrinas, embora freqüentemente eu me perguntasse a mim mesmo o que, na verdade, havia nelas para ser admiradas, se não fossem a expressão da verdade, isto é, se não contivessem uma larga medida de verdade.
.
      Incidentalmente, não acredita você que eu teria sido mais bem tratado se as minhas doutrinas contivessem uma porcentagem maior de erros e de extravagâncias? Você é tão mais moço do que eu que posso esperar contá-lo entre meus “seguidores” quando atingir a minha idade. Uma vez que, então, não poderei certificar-me disso, antecipo agora o prazer dessa possibilidade. (Você bem sabe o que se passa na minha cabeça: ein Vorgefühl von solchem Glück geniesse ich etc.)

                   In herzlicher Ergehenheit und unwandelbarer Verehrung, Ihr Freud”.

        CORRESPONDÊNCIA ENTRE EINSTEIN E FREUD - NOTAS: Albert Einstein nasceu em 14.3.1879, em Ulm, Alemanha, e faleceu em 18.4.1955, em Princeton, EUA. Recebeu o Prêmio Nobel de Física em 1921. Sigmund Freud nasceu em 6.5.1856, em Příbor, República Checa, e faleceu em 23.9.1939, em Londres, Inglaterra. A correspondência entre Sigmund Freud e Albert Einstein (Por quê da guerra?), foi publicada em 1933, na Europa e nos Estados Unidos.



REFERÊNCIAS:
JOLIVET, Régis. Vocabulário de Filosofia. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1975, p. 110.
JONES, Ernest. Vida e Obra de Sigmund Freud. Tradução de Marco Aurélio de Moura Mattos. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975, p. 743-744.


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