8 de mar de 2010

ROBERTO GOMES / Um Escritor Moderno




– PEDRO LUSO DE CARVALHO


ROBERTO GOMES, escritor e filósofo, nasceu em Blumenau, SC, em 1944. Mudou-se para Curitiba onde se graduou em Filosofia. Foi professor universitário. É editor e autor de doze livros, entre eles um livro de filosofia, Crítica da Razão Tupiniquim. Seus livros de literatura infantil são O menino que descobriu o sol e Aristeu e sua aldeia. Escreveu os romances Alegres memórias de um cadáver, Os dias do demônio e Todas as casas; este e o livro de crônica Alma de bicho são os mais recentes. Destaque-se ainda a coletânea de contos Sabrina de trotoar e tacape e Exercício de solidão, este publicado em 1998 pela editora Record.

O livro Exercício de solidão será o objeto de nossa conversa neste espaço, e para isso transcreveremos o brilhante texto de sua apresentação de autoria de André Seffrin, a quem pedimos permissão para essa transcrição:

Em Exercício de solidão bate as asas o grande pássaro da inquietude, do maravilhamento, da denúncia, do sonho e, principalmente da solidão e da melancolia. São contos que nos dizem dos encontros e desencontros desta festa que é viver. Do irônico Aos cuidados do seu Jordão ao melancólico e tragicômico Momentos de Glória, do estranho e perturbador A velha ao triste e machucante Danilo avança em diagonal – de página a página o leitor é conquistado pela arte de um contador de histórias, esta presença cada vez mais rara em literatura. Apesar de Roberto não ter dó nem piedade de seus personagens, pobre gente condenada às aflições e misérias da carne e do espírito, não podemos ignorar o humanista que ele é, escritor tocado antes de tudo pela condição humana. Se existe qualquer coisa de feroz na maneira com que vasculha e brinca com o destino destes seres em busca de amparo e liberdade, há também o afago, porque é com carinho que denuncia os reveses e as injustiças do mundo.

Vale destacar a sua multiplicidade técnica e, sobretudo, a maestria com que certos contos saltam de uma aparente facilidade para o plano extraordinário da arte literária mais sofisticada. E são vários Robertos num só – o que perturba, o que se apieda e o impiedoso, o debochado e o encantado, o onírico, o terno, o que dá asas à ironia e ao humor. São estados de espírito que marcam cada conto de maneira especial e que atravessam todo o livro subliminarmente. O seu humor é o de uma civilização que se aproxima do fim, e tem os mesmos traços daquele humor apontado por Vianna Moog em Heróis da decadência, que vem de Petrônio de Satyricon, passa por Cervantes e chega ao nosso Machado.

Sim, Roberto é um realista. Mais que isso, é um realista Machadiano. Machado de Assis inaugurou o que podemos chamar, é claro que numa classificação apenas operacional, de realismo simbólico contemporâneo. Esse realismo atravessa este século numa multiplicidade de vozes. Cyro dos Anjos, Fernando Sabino, Dalton Trevisan, José J. Veiga, Carlos Heitor Cony, Flávio Moreira da Costa e Cunha de Leiradella são alguns dos autores que percorrem algumas veredas abertas pelo criador de O alienista. Nessa família espiritual deve figurar agora o de Roberto Gomes, escritor que enfrentou durante anos o confinamento de se ver publicado em editoras de província, distante das livrarias e do público. Autor de um romance, Os dias do demônio que a crítica destacou como um dos melhores da atualidade, publicou o seu primeiro livro de contos em 1981, Sabrina de trotoar e de tacape. Dedicou-se mais ao romance e à literatura infantil, ao ensaio e à crônica. Exercício de solidão é o retorno do contista. Um outro contista desta terra do conto que se chama Curitiba. ‘Curitiba é um exercício de solidão’, diz um de seus personagens. É. Com certeza.

Júlia é o novo romance de Roberto Gomes; o livro foi editado em Belo Horizonte, MG, pela Editora Leitura, em 200o8. Antes, o escritor havia lançado Alma de bicho, livro de crônicas, 2000, e Todas as casas, romance, 2004, ambos publicados por Criar Edições.



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