10 de set de 2010

LEONARDO SCIASCIA - Talento da Sicília



                por  Pedro Luso de Carvalho


        Leonardo Sciascia nasceu em Racalmuto, na Sicília, em 8 de janeiro de 1921 e faleceu em 1989, em Palermo. Professor estudioso da escola elementar, desde 1949, em 1952, lançou o livro de contos Favole della dittadura; nesse mesmo ano, publicou o livro de poesia La Sicília il suo cuore. Mas, somente em 1956 lança seu primeiro romance, Le parochie di Regalpetra, quando contava com 34 anos de idade. Essa obra foi recebida com entusiasmo pela crítica, que não tardaria a consagrar o conjunto de sua obra, com mais de 30 livros entre romance, poesia, teatro e ensaio. Leonardo Sciascia foi um intérprete sério da realidade italiana.

        O grande sucesso de público de Leonardo Sciascia foi O dia da coruja, que veio juntar-se aos seus outros romances, dentre os quais limito-me a mencionar apenas aqueles que tive a oportunidade de ler, quais sejam: O dia da coruja, já referido, Marjorama desapareceu, 1912 + 1, A trama, Portas abertas, A bruxa e o capitão e A denúncia, todos publicados no Brasil pela editora Rocco. Em todos esses romances, Sciascia narra histórias distintas, em épocas também distintas, mas que, juntas, parecem constituir-se em um única história, na qual se faz sempre presente a recorrente derrota da razão e da dignidade humana, contrapondo-se ao triunfo da injustiça e do embuste. Daí, por certo, o motivo que o levou a renunciar o cargo no Parlamento Europeu, para o qual foi eleito pelo Partido Radical, em 1979.

        Em O dia da coruja, Sciascia conta, numa narração curta e seca, a história, em dois planos, que se passa numa pequena aldeia da Sicília, de um oficial dos “carabiniere” nascido no norte da Itália e vivendo na Sicília: o inquérito conduzido pelo oficial sobre uma série de crimes da Máfia (primeiro plano), e os fatos relacionados às cumplicidades poderosas e ocultas (em segundo plano) visando desacreditar os resultados da investigação, mostrando a inoperância da justiça diante dos acordos e da violência que substituíam a lei. Nesse romance, vê-se o mesmo Sciascia das outras obras, inconformado com a condenação de alguém a uma morte arbitrária. Para que se possa aquilatar o talento desse escritor siciliano, passo a transcrever um pequeno trecho de O dia da coruja ("Il giorno della civetta"), assim escrito por Sciascia:

        “Na Sicília, pensava o capitão Bellodi, o crime passional não nasce da verdadeira paixão, da paixão do coração; mas sim de uma espécie de paixão intelectual, de uma paixão ou preocupação pelo formalismo, como dizer?, jurídico: no sentido daquela abstração em que as leis vão se tornando cada vez mais impalpáveis através dos vários degraus de julgamento de nosso arranjo, até chegarem aquela transparência formal na qual o mérito, isto é, o humano peso dos fatos, já não vale mais; e, eliminada a imagem do homem, a lei espelha-se na própria lei. Aquele personagem chamado Ciampa, no Berretto a sonagli de Pirandello: falava como se na boca dele estivesse o Supremo Tribunal de Justiça reunido em sessão, tamanho era o cuidado com que anatomizava e reconstituía a forma sem nem tocar no mérito. E Bellodi tinha dado num Ciampa logo nos primeiro dias de sua chegada em C: era o próprio personagem de Pirandello, surgido em seu escritório não em busca de autor, que já tinha tido sumo, mas sim, desta vez, de uma indagação sutil; e por isso quisera falar com um oficial, pois o segundo-sargento parecera-lhe incapaz de apreciar a sua elaborada construção lógica”.

        Dentre os romances aqui mencionados, de Leonardo Sciascia, farei referência apenas a A trama ("Il contesto"), para dizer que a obra tem como eixo central o romance policial, técnica que Sciascia chama de “centrifugação da realidade”. Na narrativa direta, linear, Sciascia ataca a deformação da política e das alianças oportunistas, em compromissos que estão sempre se repetindo. Não foi sem razão que o romance A trama foi levado para o cinema, por Francesco Rosi, tendo sido adaptado por Damiano Damiani, com o título de Cadáveres ilustres. Sobre esse filme, sobre a correspondência de Sciascia com Italo Calvino, outro importante escritor italiano, e outras obras do escritor, falarei em outra oportunidade.

REFERÊNCIA:
SCIASCIA, Leonardo. O dia da coruja. Trad. de Mario Fondelli. Rio de Janeiro: Rocco, 1995, p. 85.


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