23 de fev de 2012

PEDRO LUSO / Livros: nunca é cedo demais

A leitora - óleo sobre tela - Federico Faruffini (Itália, 1833 – 1869)


                  por Pedro Luso de Carvalho


       O hábito da leitura deve começar bem cedo, já na infância. Mas se nessa fase da vida a criança não se sentir suficientemente estimulada a conviver com os livros, em que pese à insistência de seus pais e professores, ainda se tem a fase da adolescência para que esse hábito seja criado. O que não se pode admitir é que os seus mentores sintam-se derrotados nesse mister.

        E se passadas essas duas primeiras fases os livros ainda estiverem distantes do dia-a-dia das pessoas, não se quer dizer com isso que os adultos não poderão adquirir o hábito da leitura; a pessoa adulta consciente deve saber que o conhecimento facilita a sua vida, que a cultura faz com que as portas se abram para ela, que vive num mundo cada vez mais exigente a esse respeito.

        O fato é que muitos são os motivos que desviam crianças e adolescentes da leitura em nosso país, que ainda não saiu da sua condição de pobreza. Para o pai ou a mãe que ganham um salário-mínimo ou um pouco mais que isso por mês, para sustento de sua família, é evidente que nada sobra para os livros, que, diga-se, estão muito caros, mesmos os livros usados, que são encontrados nas livrarias conhecidas como ‘sebo’.

        Nessas livrarias, que vendem livros usados, este ou aquele livro pode ser adquirido por preço quase insignificante, mas isso, no entanto, não se constitui em regra. Pelo contrário, tenho verificado que aí esses livros usados estão também com preços muito elevados, sem que para isso se encontre justificativa, já que os livreiros os compram por preços quase que simbólicos, para depois revendê-los.

        Por esses motivos, poucas são as casas de brasileiros que têm uma pequena prateleira com livros, sem falar em biblioteca, que, nesse caso, para o nosso país seria uma desmedida pretensão. E aqui não estamos nos referindo a casas de pessoas pobres, obviamente. Falamos de casas de pessoas da classe média e das pessoas abastadas, que, por certo, não sentiriam o peso dos preços dos livros, caso viessem a comprá-los.

        Por este ou por aquele motivo, não se adquire o hábito da leitura. A regra, infelizmente, é a ausência de livros nas casas dos brasileiros, salvo raríssimas exceções. E, com essa ausência, não se pode pretender que crianças e adolescentes se sintam estimulados à leitura. Não se pode desconhecer os mistérios que os livros provocam nessas criaturas, que, quando podem, abrem-nos para matar a sua curiosidade - e é justamente aí que começa o hábito da leitura.

        Outro óbice para que crianças e adolescentes passem a se interessar e gostar de livros está na ausência de bibliotecas públicas nas pequenas cidades e nas cidades de porte médio. Até nas importantes capitais do país se depara com poucas bibliotecas. Com isso se nota que o poder público não está interessado em aplicar verbas em bibliotecas, que, certamente, não lhes dão votos. Esses mesmos políticos temem que eleitores esclarecidos não os escolham para representá-los, quando pleiteiam um determinado cargo.

        Resta-nos a esperança que livros mais baratos sejam editados, o que será possível, sem dúvida, se os editores tiverem por alvo as pessoas pobres, que não têm a exigência de capas sofisticadas e de papel da melhor qualidade. Não quero dizer com isso que o livro sofisticado, na sua apresentação, deva desaparecer; acho que, ao lado deles (dos livros caros), devem ser editados livros de baixo custo, mesmo que sejam subsidiados pelo Governo, que fiquem ao alcance das pessoas de poucas posses.

        Ao barateamento do livro deve somar-se a abertura de bibliotecas públicas em todas as cidades do país, em número que seja proporcional a de seus habitantes. Assim, existindo bibliotecas com um bom acervo de livros de bons escritores, crianças e adolescentes passarão a lê-los, não tenho a menor dúvida.

        Nesse caso, os professores se encarregarão de mostrar o caminho da biblioteca aos seus alunos. Resta-nos ainda essa esperança (livro de baixo custo e bibliotecas públicas), para que, no futuro, o brasileiro passe a contar com os benefícios da leitura.


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