2 de dez de 2011

[Crítica] ÁLVARO LINS – Romance e Biografia

Álvaro Lins


            por Pedro Luso de Carvalho


        Álvaro Lins nasceu em Caruaru, Pernambuco, a 14 de dezembro de 1912. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Recife em 1935. Dois anos antes, em 1933, escreveu A Universidade como Escola de Homens Públicos. De 1932 a 1940 dedicou-se ao magistério. Foi professsor de Geografia Geral e de História da Civilização no Ginásio do Recife, no Colégio Nóbrega, no Instituto Nossa Senhora do Carmo e na Escola Normal Pinto Junior, em Pernambuco.

        Na política, exerceu o cargo de Secretário do Governo de Pernambuco (de 1934 a 1937). No jornalismo, foi redator e diretor do Diário da Manhã, do Recife (1937-1940). Ainda no Recife, aos vinte e cinco anos, escreveu o seu primeiro livro: História Literária de Eça de Queiroz. Foi colaborador do Suplemento Literário do Diário de Notícias e dos Diários Associados (1939-19140).

         Crítico literário, Álvaro Lins foi diretor do Suplemento Literário, redator-principal e dirigente político do Correio da Manhã (1940-1956). Foi convidado pelo Ministério das Relações Exteriores para escrever um livro sobre o Barão do Rio Branco, em forma de biografia, estudo diplomático e quadro histórico da época (1940). No ano seguinte, foi convidado para o cargo de professor (interino) do Colégio Pedro II.

        Em 1942, Álvaro Lins recebeu o Prêmio Centenário de Antero de Quental, pelo seu ensaio Poesia e Personalidade de Antero de Quental. Três anos depois, 1945, nesse ano, recebeu o Prêmio Felipe de Oliveira, e Prêmio Pandiá Calógeras, da Associação Brasileira de escritores, pela sua obra Rio Branco. No período de 1946 a 1952, exerceu os cargos de Delegado Governamental, Secretário e Vice-Presidente da UNESCO no Brasil. Nos anos de 1948 a 1949, foi Presidente da Associação Brasileira de Escritores. Outros cargos e obras publicadas, serão aqui elencados, no próximo texto sobre Álvaro Lins.

         Álvaro Lins foi o quarto ocupante da Cadeira 17, da Academia Brasileira de Letras, eleito em 5 de abril de 1955, na sucessão de Roquette-Pinto e recebido pelo Acadêmico João Neves da Fontoura em 7 de julho de 1956. 
Álvaro Lins

          Segue a transcirção do nº XXVIII, do livro Alvaro lins, Literatura e Vida Literária – Diário e Confissões, editado pela Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1963, p. 37, na qual o escritor aborda o tema sobre biografias romanceadas e romances biográficos:

                     
                         [ESPAÇO DA CRÍTICA]

                     BIOGRAFIAS ROMANCEADAS ...
                                                                                       (Álvaro Lins)


        As biografias romanceadas e os romances biográficos representam hoje o que se pode chamar uma “literatura industrial”. Decerto, ninguém exigiria que o romance permanecesse dentro das fórmulas clássicas do princípio do século XIX, nem que a biografia se estabilizasse em Plutarco. Mas podemos exigir que a biografia não se rebaixe até Zweig, nem o romance chegue à falsificação de um Cronin. Ah!, que exigência platônica, porém! Bem sabemos todos quanto será difícil e inútil a revolta num terreno tão dominado e tão sólido. Qualquer atitude de luta ou qualquer gesto de esclarecimento cairiam agora no vazio, pois a sub-literatura dos “romances biográficos” dá prazer a todos os que nela se interessam: autores, livreiros, leitores. Com estes gêneros híbridos, estamos em face do que se poderá chamar, sem injúria, uma “literatura industrial”. Creio, no entanto, que a disposição de ânimo mais inteligente será assistir, ao seu desenvolvimento, com bom humor e sem irritação. Não será essa displicência um sinal de fraqueza e derrota? Bem: confio que não. Em 1839, diante de situações semelhantes, diante do sucesso do roman feuilleton que ameaçava submergir a literatura, já Sainte-Beuve falava de uma “literatura industrial”. Cem anos se passaram sobre os receios de Sainte-Beuve; a literatura industrial não matou nem infeccionou a verdadeira arte literária. Hoje, com o assalto de novos receios, será também o caso de confiar na resistência da arte contra as chantagens e as contrafações dos autores industriais. Temos, aliás, nos nossos dias, alguns romancistas verdadeiros e alguns verdadeiros biógrafos capazes de resguardar o romance e a biografia, como um legado, para gerações futuras, que os continuarão. Que resta hoje do roman´feuilleton? Nada. E sempre o nada é o que resulta de tal literatura e seus autores: “os filisteus da cultura”. Confiemos que também nada ficará dos tais romances-biográficos e das famosas biografias-romanceadas. O que eles hoje transmitem não é uma sensação de arte, mas um simples prazer. Que fiquem, pois – leitores e autores – com os seus prazeres e as suas leituras de praia ou de cadeira de balanço. Talvez, eles se inquietassem um pouco, se chegassem a conhecer todo o sentido trágico daquele verso de Baudelaire:

         Et votre châtiment naîtra de vos plaisirs.


                                                                      * * * * * *