29 de set de 2012

[Crônica] CLARICE LISPECTOR – Sentir-se Útil




   por Pedro Luso de Carvalho


Alguns traços da vida de Clarice Lispector: aos 24 anos estreia na literatura com o romance Perto do coração selvagem; exerce a profissão de jornalista (1940); forma-se em Direito e casa-se com o colega e futuro diplomata, Maury Gurgel Valente (1943); deixa o Brasil para acompanhar seu marido em missão diplomática (1944); edita o seu melhor livro de contos, Laços de família (1960); publica o seu melhor romance, A paixão segundo G.H (1964); separa-se do marido e retorna ao Brasil; sofre as consequências de incêndio em seu quarto, provocado por um cigarro aceso, e passa três dias em estado grave; depois, é acometida, por alguns anos, de depressão; publica uma de suas principais obras, o romance Água viva (1973); escreve a novela A hora da estrela (1977); deixo de mencionar importantes obras.

Clarice Lispector publica os seus primeiros contos em uma edição dos Cadernos de Cultura do Ministério da Educação; com a ampliação dessa edição, a escritora forma o livro Laços de família, título de um dos contos, que integram a obra (1960); a Livraria José Olympio Editora reedita-a em 1978 (9ª edição) - outras reedições foram feitas de Laços de família -; outros doze contos compõem esse livro, que é uma das obras-primas do conto brasileiro.

Segue a crônica Sentir-se útil, de Clarice Lispector (Clarice Lispector. Aprendendo a viver. Rio de Janeiro, Rocco, 2004, p. 98):



SENTIR-SE ÚTIL
  (Clarice Lispector)



Exatamente quando eu atravessava uma fase de involuntária meditação sobre a inutilidade de minha pessoa, recebi uma carta assinada, mas darei só as iniciais: “Cada vez que me encontro com a beleza de suas contribuições literárias, vejo ainda mais fortalecida minha intensa capacidade de amar, de me dar aos outros, de existir para meu marido.” Assinada H.M.

Não fiquei contente com você, H.M., falar de beleza de minhas contribuições literárias. Primeiro porque a palavra beleza soa como enfeite, e nunca me senti tão despojada da palavra beleza. A expressão “contribuições literárias” também não adorei, porque exatamente ando numa fase em que a palavra literatura me eriça o pelo como o de um gato. Mas, H.M., como você me fez sentir útil ao dizer-me que sua capacidade intensa de amar ainda se fortaleceu mais. Então eu dei isso a você? Muito obrigada. Obrigada também pela adolescente que já fui e que desejava ser útil às pessoas, ao Brasil, à humanidade, e nem se encabulava de usar para si mesma palavras tão importantes.



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