16 de mai de 2013

[Entrevista] MARGUERITE YOURCENAR – A forma



  
-  PEDRO LUSO DE CARVALHO 


MARGUERITE YOURCENAR recebeu uma educação especial; estudou línguas clássicas e das civilizações mediterrâneas. Estudou latim e grego pela atração que sentia pela literatura do mundo clássico. A sua obra de ficção contém muito dessa literatura, para as quais aplicou uma técnica que lhe era própria.

Os romances de Yourcenar foram produzidos justamente tendo por base essa cultura clássica, que acumulara quase sempre voltada à História. Memória de Adriano (1951), romance no qual imaginara esse imperador, no início do segundo século da era cristã, é um bom exemplo do fascínio que exercia sobre ela a produção artística e literária do mundo clássico.
       
A obra de Marguerite Yourcenar é extensa, ao todo 25 livros, mais da metade traduzida para o português, a partir de 1980. Os temas de seus livros passam pela história, pela arte, pela religião e pelo erotismo.

As duas dimensões praticamente inseparáveis dos temas místicos que aborda, e que procura fazer sobressair-se na sua obra, são o profano e o sagrado. A título de exemplo, mencionamos a A obra em negro, Contos orientais, Fogos, Alexis, O tempo, esse grande escultor, Recordações de família e Arquivos do norte.

Segue a resposta nº 1, de Marguerite Yourcenar, a Patrick de Rosbo sobre a forma, feita na entrevista que lhe concedeu na rádio Frace Culture em janeiro de 1971 (in Entrevistas com Marguerite Yourcenar/Patrick Rosbo, tradução de Raquel Ramalhete – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987, p.15-16):



 [ESPAÇO DA ENTREVISTA]


A FORMA
( Marguerite Yourcenar )



ROSBO – pergunta nº 1– Como se coloca para a senhora o problema da forma na criação de sua obra?

MARGUERITE YOURCENAR – resposta nº1 – O problema da forma desempenha um papel particular no pensamento crítico da França e, na minha opinião, damos-lhe muitas vezes um lugar importante demais. O respeito de nossos compatriotas pela literatura é tal que, quando se diz que um livro  foi bem escrito, tudo foi dito. Na verdade, para mim, não há antítese entre fundo e forma.

A forma de um ser é o aspecto visível, tangível de sua natureza. Este cão fraldeiro que está a meu lado, nós o reconhecemos como fraldeiro por sua forma. É por sua forma que ele é o que é e não um são-bernardo. Quando olhamos num museu uma velha de Rembrandt ou, ao contrário, a Vitória de Samotrácia, é só através de uma certa forma que conhecemos o pensamento que o pintor ou o escultor quiseram nos transmitir: por um lado o patético da velhice, a dignidade da velhice, por outro o impulso heroico, a tempestade feita mulher, uma espécie de grande anjo feito de velocidade e vento. Nos dois casos, a forma não é outra coisa senão o fundo tornado visível e a essência tornada palpável: aqui um emaranhado de rugas, lá dobras de pano, escavadas e infladas pelo vento do mar. Se não houvesse essa forma pintada ou esculpida não haveria nem pensamento, , nem obra, nem obra-prima. E o mesmo acontece com tudo o que nos toca na vida. É pela forma que nos reconhecemos, como é pela ação que nos mostramos tal como somos. Proponho então que o problema da forma enquanto oposto, superimposto ao pensamento, seja de certo modo deixado de lado, porque é um falso contraste e um falso problema.



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