24 de out de 2012

[Crônica] LUIS FERNANDO VERISSIMO – A Mulher do Silva



Por Pedro Luso de Carvalho


LUIS FERNADO VERÍSSIMO nasceu a 26 de setembro de 1936, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Seus estudos foram iniciados na sua cidade natal e depois, quando sua família mudou-se para os Estados Unidos, foram retomados no Theodore Roosevelt High School, em Washington. Como entende que nenhum proveito tirou desses estudos, Verissimo afirma sempre ser um autodidata.

Pelo valor incontestável de sua criação, vê-se que Luis Fernando Verissimo, um dos escritores mais importantes de nosso país, não teve contra si o peso da fama de seu pai, Erico Verissimo, autor da monumental trilogia O Tempo e o Vento, entre outros romances que igualmente enriquecem a Literatura Nacional.

Nas suas crônicas, Verissimo explora a sátira com maestria. O mesmo ocorre com o amor e desamor, e com a crítica sócio-política, através da qual mostra as distorções próprias dos países que convivem com a injustiça social, em cujos textos o humor faz-se presente, em que pese possa esse mestre da crônica mostrar-se cético.

Segue a crônica A mulher do Silva, de Luis Fernando Veríssimo (In As noivas do Grajaú/Luis Fernando Verissimo. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1999, p. 27-29):


[ESPAÇO DA CRÔNICA]


A MULHER DO SILVA
       (Luis Fernando Verissimo)


Foi um escândalo quando a frente da casa do Souza apareceu pintada, certa manhã, com uma frase sucinta sobre a, digamos assim, conduta moral da mulher do Silva, que moram em frente. O Silva, indignado, foi perguntar ao Souza:

 – Quem foi?

– Não sei

– Como, não sabe? A casa é sua.

– Não posso ficar na calçada cuidando pra não pintarem a fachada. Posso?

Não podia. Mas aquilo não ia ficar assim. Pior era que a frase nem citava a mulher do Silva pelo nome. Ela era identificada como “a mulher do Silva”. E, para que não ficassem dúvidas: “... da frente”.

– Apaga – pediu Silva.

– Como?

– Com tinta branca. Pinta por cima.

– Mas a minha casa é amarela.

– Pinta de amarelo.

– Só uma faixa amarela? Vai ficar horrível.

– Então pinta a casa toda.

– E cadê o dinheiro?

– Eu exijo que você pinte a casa toda.

– Só se você me der o dinheiro.

– A casa é sua.

– Mas a mulher é sua.

Silva concordou. Pagou uma pintura completa da casa do Souza. Só reagiu quando o Souza sugeriu que ele pagasse também uma pintura interna, que estava precisando. O Silva pediu que o Souza não contasse para ninguém. Mas a notícia se espalhou pela vizinhança. E, não demorou muito, a casa do Moreira, que estava com tinta descascando, apareceu com uma frase na frente sobre certos supostos hábitos da mulher do Silva. O Silva foi lá.

– Quem foi?

– Sei lá. Moleques.

– Apaga.

– Não sai.

– Pinta por cima…

– Só pintando a casa toda...

Quando saiu da casa do Moreira, depois de ter concordado em financiar uma pintura completa, o Silva viu que na frente da casa do Santos, ao lado, estava escrito:

“Dou fé.” Já entrou direto na casa do Santos para combinar o preço.

O quarteirão até ficou bonito, como as casas pintadas de novo. Algumas casas, é claro, ainda têm a pintura antiga. E todas as manhãs o Silva as examina, prevendo o pior. Se bem que, segundo alguns, ele também devia vigiar a sua mulher.


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