8 de ago de 2012

[Conto] CARLOS CARVALHO / Gênese



                       por  Pedro Luso de Carvalho

               
             CARLOS CARVALHO (Carlos José Gomes de Carvalho) nasceu em Porto Alegre, RS, no ano de 1939, onde faleceu, no ano de 1985, aos 46 anos. Nas décadas de 1970 e 1980 destacou-se na dramaturgia. Versátil, não se limitou a escrever para o teatro, também foi poeta e contista. Ao Teatro deu sua contribuição não apenas com suas peças, mas também como ator e diretor.
          
        O livro de contos, Calendário do medo deu ao seu autor, Carlos Carvalho, o II Prêmio no Concurso Naional de Contos do Estado do Paraná - FUNDEPAR.
         
        Na Casa de Cultura Mario Quintana, uma das salas de espetáculos leva o nome Carlos Carvalho, uma homenagem da Secretaria de Cultura de Porto Alegre ao dramaturgo.
       
         O conto que segue, Gênese, integra o livro de Carlos Carvalho, Calendário do medo,  3ª ed. Porto Alegre, Editora Movimento, 1975, p. 64:

                                     
                                                   [ESPAÇO DO CONTO]

                                                 
                                                          G Ê N E S E
                                                                                                                   (Carlos Carvalho)



          No primeiro dia limpou a casa, caiou as paredes, pendurou as cortinas, distribuiu os móveis, arrumou os livros, pintou o número na porta, colocou o tapete, forrou o sofá e viu que isto era bom.
          
         No segundo dia estendeu os fios, instalou comutadores novos e brilhantes, e ligando os comutadores viu que a luz se fazia, clara, forte, iluminando tudo, reverberando nas paredes brancas, e isto também era bom.
        
        No terceiro dia, construiu encanamentos, trouxe a água da vertente e, concluído o trabalho, abriu as torneiras e a água jorrou límpida, cristalina, ainda fresca do nascedouro, o que o fez sorrir, pensando que isto também era bom.
       
        No quarto dia comprou um aguário com peixinhos de cor, uma gaiola com dois canários e um vaso com flores, que distribuiu pela casa, e vendo os peixinhos, ouvindo os canários, sentindo o perfume das flores ficou feliz, pois que isto era bom.
       
        No quinto dia, banhou-se na água da vertente, barbeou-se, vestiu roupas novas, olhou-se ao espelho e viu-se criado na casa que construíra e pensou que precisava de uma companheira e saiu a bater de casa em casa, até que encontrou uma rapariga modesta e simples que aceitou com ele dividir a casa, os canários, as flores, a água e a luz, e a isto ele sorriu feliz, pois que era bom.
       
        No sexto dia, acordou com a companheira, desembaraçou-lhes os cabelos, deu-lhe banho, perfumou-a, levou-a para o leito e amou-a, e deste amor nasceram muitos filhos que se multiplicaram e encheram a casa e que o fizeram feliz, vendo que isto era bom.
       
        No sétimo dia, cumprida a tarefa, reuniu a família, dividiu o pão do celeiro e o vinho da adega, beijou um a um os filhos, sorriu para a companheira e, sem outro aviso, deitou para descansar e nunca mais acordou. E isto também foi bom.

                                                         


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