16 de ago. de 2013

[Ciência] MICHAEL FARADAY – A Indução da Eletricidade

   

-  PEDRO LUSO DE CARVALHO 


MICHAEL FARADAY nasceu no dia 22 de setembro de 1791, nas proximidades de Londres. A profissão de ferreiro de seu pai, não lhe dava condições financeiras para manter o filho na escola. Faraday anotou no seu diário: “Minha instrução foi das mais ordinárias, consistindo em pouco mais que rudimento de escrita e aritmética numa escola comum. As horas fora da escola, passava-as em casa ou na rua”. Aos 13 anos trabalhou como mensageiro de uma livraria; aí trabalhou como aprendiz de encadernador, dos 14 aos 21 anos.

Um dos proveitos que Faraday tirou de seu modesto emprego foi o de trabalhar numa livraria, cujo proprietário, o senhor Riebau, deixava livros à sua disposição. No seu diário, Faraday escreveu: “Durante meu aprendizado – de encadernador – gostava de ler os livros científicos que me caiam nas mãos, e entre eles as Conversations in Chemistry de Macet, assim como os tópicos sobre eletricidade da Enciclopédia Britânica. Daí foi um passo para que comparecesse a algumas palestras sobre química proferidas por Sir Humphrey Davy, cientista famoso, e de tudo tomava notas muito exatas.

Com 21 anos, Faraday passa de aprendiz para encadernador, mas, não se sentindo realizado com seu trabalho, procurou o cientista famoso e mostrou a ele todas as anotações que fizera de suas palestras; assim, o vaidoso cientista, Sir Humphrey Davy, contratou-o para ser seu secretário. Faraday trabalhou apenas alguns meses para Davy, que o dispensou. Pouco tempo depois, o cientista reconsiderou essa dispensa e contratou Faraday para ser assistente de laboratório, trabalho esse que o estimulou a dedicar-se à ciência pura, todas as horas possíveis de seus dias.

Faraday fez uma viagem pela Europa com Davy, que durou dois anos. De volta a Londres, Faraday dedicou-se então exclusivamente ao trabalho no laboratório de Sir Humphrey Davy. Aí fez experimentos de química, eletroquímica e metalurgia; estudos que deu-lhe a reputação de cientista: descobriu o benzeno, produziu o primeiro aço inoxidável, foi o primeiro a liquefazer muitos gases; e, mais: descobriu as leis da eletrólise e as leis da rotação magnética do plano da luz polarizada.

Michael Faraday raciocinou – escreveu Herbert Kondo – que se um pólo magnético tivesse liberdade de se mover, deveria girar em volta do condutor, devendo ser verdadeiro também o contrário. O próprio condutor deveria ser capaz de girar em torno do pólo magnético. Em seguida Faraday realizou as famosas experiencias que o levariam a descobrir os princípios básicos do motor elétrico. Por essas descobertas, foi indicado para a Royal Society - movido pela inveja, Davy tinha votado contra -; mesmo assim, foi eleito em 1824.

Depois de ter descoberto o princípio básico do gerador elétrico, Faraday estava próximo da indução de uma corrente elétrica contínua. Em outras experiencias de indução eletromagnética Faraday dá ao mundo o primeiro transformador elétrico, e produziu o primeiro dínamo. Os resultados dessas experiencias foram comunicados à Sociedade Real; mais tarde publicou a primeira parte de suas experiencias no Experimental Researces in Electricity.

O cientista nascido na pobreza e sem estudos – escreve Herbert Kondo – era agora professor vitalício da Royal Institution e vivia em Hampton Court. Faraday celebrizou-se como o experimentador que descobriu a indução da eletricidade. E foi um dos grandes fundadores da física moderna. A 25 de agosto de 1867 Michael Faraday morre em paz em sua cadeira de estudo, sem se dar conta do tumulto que provocaria a questão de saber se era supremo o campo ou a partícula.


  
REFERÊNCIA:
KONDO, Herbert. Cientistas Famosos. Scientific American. Tradução de José Reis. São Paulo: Ibrasa, 1961.


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11 de ago. de 2013

[Crônica] P. CALAMANDREI – O rasgão fatal


    
-  PEDRO LUSO DE CARVALHO 


PIERO CALAMANDREI nasceu na cidade de Florença, Itália, em 1889 e faleceu em 1956. Foi professor nas Universidades de Florença, Messina, Modena e Siena. Foi um dos poucos professores que não integrou o Partido Nacional Fascista. Em 25 de julho de 1945 foi eleito Reitor da Universidade Florentina. Foi um expoente da moderna escola de direito processual civil, além de renomado advogado.

Fundou com Chiovenda e Carnelutti a Revista de Direito Processual (Rivista di diritto processuale). Em 1945 fundou a revista político-literária Il Ponte. Eleito para a Assembleia Constituinte fez parte da comissão encarregada de redigir o projeto da Constituição Italiana (foi deputado de 1948 a 1953).

De sua obra destacam-se: La chiamata in garantia, 1913; La cassazione civile, 1920; Studi sul processo civile, 1930 - 57; Elogio dei giudici scritto da un avvocato, 1935. Inventario della casa di campagna, 1941; Istituzione di diritto processuale civile, 1941 - 44;  Scritti e discorsi politici, publicação póstuma, em 1966.

O livro Elogio dei giudici scritto da un avvocato foi traduzido para o português por Ary dos Santos, com o título Eles, os juízes, visto por nós, os advogados, e foi publicado pela Editora Livraria Clássica Editora, Lisboa, Portugal.

Segue a crônica Rasgão fatal, de Piero Calamandrei (In Calamandrei, Piero. Eles, os juízes, vistos por nós, os advogados. Tradução de Ary dos Santos. 4ª ed. Livraria Clássica Editora: Lisboa, Portugal, 1971):


[ESPAÇO DA CRÔNICA]


 O RASGÃO FATAL
    [ Piero Calamandrei ]


Vi no Palácio da Justiça, sob a porta de uma sala, um velho advogado que esperava, já de toga vestida, a sua vez de falar. Encostado com ar cansado à ombreira parecia estar em contemplação estática, as mãos cruzadas sobre o peito, em gesto de oração, alheio e penetrado de solidão no meio da turba barulhenta dos colegas. Observando-o, porém, mais de perto, vi que não estava a rezar, mas sim a medir, pelas pulsações e com o olhar fixo no relógio, os batimentos do coração.

Um colega indiscreto tirou-o daquele isolamento, perguntando-lhe com malícia se tinha febre, ao que o outro respondeu, como se tivesse acordado de um sonho: “Dizem os médicos que os doentes do coração não devem discutir causas...”.

Só nesse momento notei a palidez violácea da daquela cara e, nas fontes, debaixo de uma pele de cera, o trajeto marcado das pequenas artérias, nas quais o vulgo julga crer que esteja escrita a morte imediata.

O oficial de diligências fez a chamada para o seu processo. Entrou para a sala de audiências e quando daí a pouco eu lá entrei também, vi com admiração que o velho advogado, alquebrado e doente, se transformara, da bancada da defesa, num robusto orador cheio de vida, esbraseado pela discussão e agitando aquele pulso no qual, instantes antes, expiava o passo da morte em marcha.

Agora, que estava em jogo a vitória do seu cliente, já não lhe vinha a ideia moderar o gesto mais brusco ou apóstrofe mais violenta, que por si só podia bastar para, na frágil consistência daquela pequena artéria, abrir o rasgão fatal.



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REFERÊNCIA:
CALAMANDREI, Piero. Eles, os juízes, vistos por nós, os advogados. Tradução de Ary dos Santos. 4ª ed. Livraria Clássica Editora: Lisboa, Portugal, 1971.



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30 de jul. de 2013

[Conto] NELSON RODRIGUES – Romance



 
-  PEDRO LUSO DE CARVALHO


NELSON RODRIGUES foi jornalista, cronista, romancista, contista e dramaturgo (o mais importante dramaturgo brasileiro do século 20), legou-nos uma obra de inestimável valor literário. Nas suas obras ataca o mundo pequeno-burguês com ferocidade, embora ele próprio tivesse sido criado no ambiente da pequena burguesia.

Suas principais peças são: Vestido de noiva (1943), Álbum de família (1945), A falecida (1953), Beijo no asfalto (1960), Toda nudez será castigada (1965).

Nelson Falcão Rodrigues nasceu a 23 de agosto de 1912, no Recife, e morreu em 21 de dezembro de 1980, no Rio de Janeiro.

Segue o conto Romance, de Nelson Rodrigues (In Rodrigues, Nelson. A vida como ela é... Rio de Janeiro: Agir, 2006, p. 234):



[ESPAÇO DO CONTO]


ROMANCE
 [ NELSON RODRIGUES ]  



Conheciam-se a um mês e meio. Preliminarmente, achou a pequena meio sem graça, enjoativa. Os amigos viviam dizendo: “Te olha muito!” “Te dá muita bola!” Embora lisonjeado, fazia-se de superior, de inconquistável: “Não interessa!” Um dia, porém, um conhecido vem com a notícia:

– Tu sabes que a tal fulana é casada?
– Casada?

O interesse do Egberto, que era ralo, quase inexistente, cresceu de uma maneira fantástica. Puxou o informante pelo braço; levou-o para o fundo de um café. E lá, num canto conspirativo, teve, por assim dizer, a biografia-relâmpago da pequena. Soube que o marido era um tal de Chaves, sujeito magro, de peito fundo, com propensão para tísico. De olho brilhante e o lábio trêmulo, Egberto já admitia:

– Sabe que tem graça dar em cima da mulher dos outros?

O amigo piscou o olho:

– Aproveita! Aproveita!



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25 de jul. de 2013

[Poesia] PABLO NERUDA – A minhas obrigações

  

                  -   PEDRO LUSO DE CARVALHO 


Neftalí Ricardo Reys Basoalto, nascido a 12 de julho de 1904, em Parral, Chile, passaria a ser conhecido pelo nome de PABLO NERUDA; na sua poesia  ele inventaria e reinventaria temas profundamente ligados ao amor e à vida. O poeta morreu na capital de seu país, Santiago, em 23 de setembro de 1973.

Pablo Neruda, sabidamente um dos mais importantes poetas dos tempos modernos, deixou uma extensa obra, com mais de 50 livros, que foram traduzidos para vários idiomas, tendo uma vendagem superior a um milhão de exemplares.

O intenso lirismo da poesia de Neruda e a sua criatividade prodigiosa, com cinco volumes de poesia publicados quando contava com apenas 22 anos, na década de 1920, contribuiu fortemente para firmar a sua reputação. O seu segundo livro, Vinte poemas de amor e uma canção desesperada, tornou-se popular e um clássico, em razão da elegância, doçura e profunda melancolia.

No ano de 1940 Neruda começou a escrever um poema épico, para o qual levou elementos da flora, da fauna, da história, da mitologia e das lutas políticas da América Latina. O seu livro Alturas de Machu Picchu, inspirado nas civilizações pré-colombianas, viria tornar-se o centro do épico Canto geral (1950).

Em 1971, a Academia Sueca concedeu a Pablo Neruda o Prêmio Nobel de Literatura.

Segue A minhas obrigações, poema de Pablo Neruda (in Neruda, Pablo. Antologia Poética. Tradução de Thiago de Mello. Rio de Janeiro: 1964, p. 145-146):



[ESPAÇO DA POESIA]


A MINHAS OBRIGAÇÕES
           [ PABLO NERUDA ]



Cumprindo com meu ofício
pedra com pedra, pena com pena,
passa o inverno e deixa
lugares abandonados,
habitações mortas:
eu trabalho e trabalho.
devo substituir
tantos esquecimentos
encher de pão as trevas,
fundar outra vez a esperança.

Para mim apenas a poeira,
a chuva cruel da estação,
não me reservo nada
a não ser todo o espaço
e nele trabalhar, trabalhar,
manifestar a primavera.

A todos tenho que dar algo
cada semana, cada dia,
um presente que seja azul,
uma pétala fria do bosque,
e já de manhã estou vivo
enquanto os outros se submergem
na preguiça, no amor,
eu estou limpando meu sino,
meu coração, minhas ferramentas.

Tenho orvalho para todos.



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22 de jul. de 2013

[Conto] RUBEM FONSECA – Corrente



 -  PEDRO LUSO DE CARVALHO 


RUBEM FONSECA nasceu em Juiz de Fora, MG, a 11 de maio de 1925. Formou-se em Direito na cidade do Rio de Janeiro. Aí exerceu o cargo de inspetor de polícia, por alguns anos. Atraído pela literatura, exonerou-se do cargo. Passou a dedicar-se ao romance e ao conto. Sua obra encontra-se publicada em vários países.

O escritor é detentor de muitos prêmios literários: Pen Club do Brasil (A coleira do cão); Câmara do Livro de São Paulo (A coleira do cão); Associação Paulista de Críticos de Arte (O cobrador); Prêmio Goethe (A grande arte); Prêmio Giuseppe Acerbi, Mantova, Itália (Vaste emozione e pensie imperfeti); Jabuti (O buraco na parede – conto); Prêmio Machado de Assis, Biblioteca Nacional (E do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto); Prêmio Eça de Queiroz da União Brasileira de Escritores (A confraria dos Espadas – conto); Prêmio de melhor romance do ano, da Associação Paulista de Críticos de Arte (O doente Molière); Prêmio Luis de Camões, Brasil/Portugal, pelo conjunto da obra, em 2003; 14º Prêmio de Literatura Latino-americana e Caribe Juan Rulfo, México, em 2003.


Segue corrente, conto de Rubem Fonseca (in Fonseca, Rubem. Lúcia McCartney. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1987, p. 113):


[ESPAÇO DO CONTO]


 CORRENTE
[ RUBEM FONSECA ]


Após meses de sofrimento e solidão chega o correio:
esta corrente veio da Venezuela escrita por Salomão
[Fuais
para correr mundo
faça vinte quatro cópias e mande a amigos em
 lugares distantes:
antes de nove dias terá surpresa, graças a Santo
[Antônio.
Tem vinte e quatro cópias, mas não tem amigos
[distantes.
José Edouard, exército venezuelano, esqueceu de
[distribuir cópias
perdeu o emprego.
Lupin Gobery incendiou cópia, casa pegou fogo,
metade da família morreu.

Mandar então a amigos em lugares próximos.
Também não tem amigos em lugares próximos.

Fecha a casa.
Deitado na cama, espera surpresa.


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19 de jul. de 2013

[Filosofia] NIETZSCHE – Juventude




-  PEDRO LUSO DE CARVALHO 


FRIEDRICH WILHELM NIETZSCHE nasceu em Rökken, perto de Lutzen, em 1844, e faleceu em Weimar em 1900. O filósofo alemão, um dos pensadores mais influentes do século 19, teve sua moral baseada na cultura da energia vital e na vontade do poder que eleva o homem até a categoria de super-homem, como se vê em Assim Falava Zaratustra, sua obra mais importante.

No verbete sobre Nietzsche, da Enciclopédia Judaica Castelhana, publicada no México em 1950, lemos: “Filósofo e poeta lírico alemão 1844-1900. Seus escritos têm exercido profunda influência, e foi ele quem cunhou expressões tais como super-homem, transmutação de valores, espírito senhoril, etc. Os nazistas a princípio adotaram conceitos nietzschianos, mas tiveram de abandonar as obras de Nietzsche ao se darem conta de que as obras dele estavam muito longe de oferecer fundamentação ideológica ao nazi-fascismo.”

Suas principais obras: A gaia ciência (1882); A genealogia da moral (1887); Além do bem e do mal (1886); A origem da tragédia (1872); Assim falava Zaratustra (1883); Aurora (1881); Ecce Homo (1888); Humano, demasiado humano (1878); O anticristo (1888); O caso Wagner (1888); Crepúsculo dos ídolos (1888); Opiniões e sentenças misturadas (1879); O viajante e sua sombra (1879); Vontade de potência (publicação póstuma – 1901).

Segue o texto de Nietzsche intitulado Juventude (In Nietzsche, Friedrich. Além do bem e do mal. Tradução de Antonio Carlos Braga. 2ª ed. São Paulo: Editora Escala, 2007, nº 31, p. 48-49):


         [ESPAÇO DA FILOSOFIA]


           JUVENTUDE
                                      [ NIETZSCHE ]



Durante os anos da juventude, se venera ou se despreza ainda sem essa arte da nuance que constitui o melhor benefício da vida e, mais tarde, é natural que se pague muito caro, por ter assim julgado coisas e pessoas por um sim e por um não. Tudo é disposto de forma que o pior gosto, o gosto do absoluto, seja cruelmente burlado e profanado até que o homem aprenda a colocar um pouco de arte em seus sentimentos e que, em suas tentativas, dê preferência ao artificial, como fazem todos os verdadeiros artistas da vida. A inclinação à cólera e o instinto deveneração, que são próprios da juventude, não parecem repousar até que tenha desfigurado homens e coisas, para poder assim se desafogar. A juventude em si já é alguma coisa que engana e que falsifica. Mais tarde, quando a alma jovem, torturada por mil desilusões, se encontra finalmente cheia de suspeitas contra si mesma, ainda ardente e selvagem, mesmo em suas suspeitas e seus remorsos, como haverá de entrar em cólera contra si mesma, como haverá de se dilacerar com impaciência, como haverá de se vingar de sua longa cegueira, que se poderia julgar coluntária, tanto se enfurece contra ela! Nesse período de transição, o homem se pune a si mesmo, por desconfiança de seus próprios sentimentos; martiriza seu entusiasmo pela dúvida, a boa confiança já aparece como um perigo, a ponto que se poderia acreditar que o eu está irritado com isso e que uma sinseridade mais sutil se cansa com isso; e, sobretudo, toma partido, por princípio, contra a “juventude”. – Dez anos mais tarde se dá conta que isso também não foi senão – juventude!


          
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13 de jul. de 2013

[Poesia] PABLO NERUDA – A casa




-  PEDRO LUSO DE CARVALHO 


PABLO NERUDA, cujo nome de registro civil era Neftalí Ricardo Reys Basoalto, nasceu a 12 de julho de 1904, em Parral, Chile. O poeta morreu na capital de seu país, Santiago, em 23 de setembro de 1973. A sua poesia se caracteriza pela invenção e reinvenção de temas profundamente ligados ao amor e à vida.

Neruda, sabidamente um dos mais importantes poetas dos tempos modernos, deixou uma extensa obra, com mais de 50 livros, que foram traduzidos para vários idiomas, tendo uma vendagem superior a um milhão de exemplares.

O intenso lirismo da poesia de Neruda e a sua criatividade prodigiosa, com cinco volumes de poesia publicados quando contava com apenas 22 anos, na década de 1920, contribuiu fortemente para firmar a sua reputação. O seu segundo livro, Vinte poemas de amor e uma canção desesperada, logo se tornou popular e um clássico, em razão da elegância, doçura e profunda melancolia.

Quanto ser ou não comprometida a poesia de Neruda, a resposta correta é dada por José Miguel Ibañez Langlois, também chileno, nascido em Santiago, professor de Literatura da Universidade do Chile: “Neruda como poeta tem o compromisso imediato que a sensibilidade contrai ante o objeto que a estimula: o corpo da mulher, a paisagem, o espetáculo da fome ou da miséria. Não conhecemos outro compromisso de maior profundidade, de Neruda como poeta”.

No ano de 1940 Neruda começou a escrever um poema épico, para o qual levou elementos da flora, da fauna, da história, da mitologia e das lutas políticas da América Latina. O seu livro Alturas de Machu Picchu, inspirado nas civilizações pré-colombianas, viria tornar-se o centro do épico Canto geral (1950).

Em 1971, a Academia Sueca concedeu a Pablo Neruda o Prêmio Nobel de Literatura.

Segue A casa, poema de Pablo Neruda (in Neruda, Pablo. Antologia Poética. Tradução de Thiago de Mello. Rio de Janeiro: 1964 p. 36-37):


[ESPAÇO DA POESIA]


A CASA
[ PABLO NERUDA ]



Minha casa, as paredes cuja madeira fresca,
recém-cortada ainda recende: desarrumada
casa da fronteira, que rangia
a cada passo, e silvava com o vento de guerra
do tempo austral, fazendo-se elemento
da tempestade, ave desconhecida
sob cujas plumas frias germinou meu canto.
Vi sombras, rostos que como plantas
cresceram ao redor de minhas raízes, parentes
que cantavam toadas à sombra de uma árvore
e disparavam entre os cavalos molhados,
mulheres escondidas na sobra
que deixavam as torres masculinas,
galopes que açoitavam a luz,
                                            contaminadas
noites de cólera, cães que ladravam.

Meu pai com a madrugada ainda escura
da terra para que perdidos arquipélagos
se deslizou em seus trens que ululavam?
Mais tarde amei o cheiro do carvão na fumaça,
as graxas, os eixos de precisão gelada,
e o grave trem cruzando o inverno estendido
sobre a terra, como uma larva maravilhosa.

De repente as portas trepidaram.
                                                  É meu pai.
Rodeiam-no os centuriões do caminho:
Ferroviários embrulhados em suas capas molhadas,
o vapor e a chuva com eles revestiram
a casa, a sala de jantar se encheu de relatos
enrouquecidos, os copos se esvaziaram
e até mim, dos seres, como uma separada
barreira, em que viviam as dores,
chegaram as aflições, as taciturnas
cicatrizes, os homens sem dinheiro,
e a garra mineral da pobreza.



                                                     *  *  *